Um Natal eterno
"Porque alguém carregou o piano, hoje eu posso ouvir a música." (Wilma Oliveira)
Aos dez anos, nenhuma história de Papai Noel fazia sentido. Enquanto Nina passava os primeiros dias de férias na casa da vovó, explorava tudo em busca dos esconderijos que pudessem revelar o tão aguardado presente. Faltava uma semana para a grande noite e nenhum sinal. Nos anos anteriores tinha sido mais fácil, bastavam dois dias para encontrar os embrulhos e adivinhar o que era de quem.
A cada distração daquela senhorinha, lá estava a neta abrindo gavetas e portas em todos os quartos ou agachada espiando embaixo das camas. Chegou ao cúmulo de abrir o sofá-cama… para nada.
— Já sei! No porão!
Nina acabou encontrando garrafas empoeiradas, um cheiro mofado que fazia arder as narinas e a frustração de não ver algo que lembrasse um bom presente. Até que, em um cantinho escondido, enxergou um baú antigo. Pequeno, mas bonito o suficiente para despertar a sua curiosidade…
Ela foi até a porta que estava encostada, tentou ouvir se havia alguém se aproximando e, certa de que era ignorada, voltou ao seu tesouro misterioso. Seu coração batia apressado e os olhos brilhavam. Com um pouco de força, conseguiu abri-lo. Havia algumas fotos antigas e, abaixo delas, um caderno com folhas amareladas pelo tempo, muitas destruídas por traças ou rasgadas. Um trecho borrado chamou a sua atenção:
“Natal de 62. Hoje minha mãe fez pão frito com açúcar e canela. Tomamos um pouco de vinho que tinha sobrado no garrafão, misturado com água e mel. Meu pai estava furioso e, pra variar, descontou nas minhas costas. Eu odeio aquele chicote.”
Ela sabia de quem era aquele diário. Sua mãe sempre falava do tal chicote. As tias riam porque nunca o conheceram. A avó ficava calada.
Tomou um susto ao ouvir o avô chamando, guardou tudo no lugar e correu para encontrá-lo.
— Que cara é essa, menina? Tava aprontando? Vai lavar as mãos para almoçar.
Durante o resto da semana, ela ficou mais calada do que nunca e não desgrudou da avó. Prepararam os docinhos, fizeram compras e o diário ficou onde estava: esquecido em um porão escuro.
Noite de Natal. Todos os presentes sob a árvore enfeitada. Mesa posta. Chester, fios de ovos, abacaxi, pêssego e figo. Arroz à grega. Brigadeiros, beijinhos, olhos de sogra. Salpicão (o melhor do mundo). Cerveja para os seis adultos. Refri para as três meninas.
Meia noite. Abraços. Noite feliz, família feliz… Hora de abrir os presentes.
Seu coração palpitava. Respirava fundo para levar um pouco do ar até os pulmões. Seus olhos iam dos adultos para os pacotes que sumiam aos poucos. A boca sorria — apenas ela. Acho que vou dormir… ou vomitar.
— E esse que sobrou? De quem será? — debochou a tia.
A menina estendeu a mão sem muita vontade. Ao tocar naquele embrulho, paralisou. As lágrimas grossas entravam pela boca aberta. Não saía nenhum som. Nada. Ela olhava para cada um deles, incrédula… Pai, mãe, tia, vovô, vovó… todos sorriam e a olhavam.
— Rasga! — dizia um.
— Respira.
— Chora, Nina!
Quando saiu do transe, rasgou um cantinho do papel, só para confirmar.
Seus olhos perguntavam:
— Mas, o quê…
— Como vocês…
— Cadê???
Nisso, alguém surgiu por trás da porta com ela: vermelha. Brilhante. E com cestinha.
Correu para a rua e esqueceu do mundo enquanto pedalava. Era o dia mais feliz da sua vida e o Natal já havia acabado mesmo.
Ela nem desconfiava, mas aquele Natal nunca mais acabaria. O melhor presente e a maior dor guardadinhos no baú da memória.
Alguns anos depois, enquanto a filha abria outro presente, Nina observava os olhos apaixonados de sua mãe pela neta. Ninguém jamais saberia o que eles escondiam. O rosto envelhecido, suas incontáveis rugas e o peso no olhar sempre foram ótimos disfarces.
Ela nem conseguia recordar quantas vezes viu a mãe esbravejar ou pôr pra fora um pouquinho da raiva que acumulou ao longo dos anos. Não se lembrava de tê-la visto chorar. Sempre a mais animada. Sempre a líder. Sempre a mais acolhedora. Nina lembrava das poucas vezes que apanhou dela: algumas chineladas de leve, a varinha ameaçadora em cima da geladeira… e só. Nada parecido com chicotadas. Nunca houve conversas entre elas. Toques, abraços e beijos também eram raros. Sempre existiu uma espécie de abismo permeado por silêncios e dores inconfessas. Foi um lar possível.
Sua filha, de oito anos, nunca levou uma palmada sequer. Os tempos são outros. Há conversas, olho no olho. Sentimentos são nomeados e validados. As correções existem e as punições também, mas não há agressão física. Aliás, não há agressão. Nem física, nem verbal, nem moral. Há abraços e confiança. Sua casa é um lar de afetos expressos.
Em silêncio, Nina aproxima-se da mãe e agradece. Elas se abraçam. Foi-se mais um Natal, leve como quem encontra ar depois de muito tempo no escuro.
P.S. A frase “Porque alguém carregou o piano, hoje eu posso ouvir a música” é atribuída a Wilma Oliveira, do IDESV (@idesvevoce)
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Ou… o piano que você carregou para que seus filhos pudessem ouvir a música.





Que bom que tudo acabou bem para a Nina.
Estou no momento carregando a Orquestra Sinfônica da Asa Norte, disfarçada de inventário... Meu Deus, nunca pensei que pudesse mais coisa escrota junta que de um DCE de Humanas... =D
Mas paremos de reclamação e boremos, que uma hora o chorinho que a orquestra toca agora há de um dia virar um Beatles mais animadinho.
Bjs, minha amiga, fique com Deus!