Rasgar-se
Me recolhi, fiquei só, até florescer. (OTM)
É o tempo da travessia; e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos. (Fernando Teixeira)
O Bosque dos Silêncios era o local perfeito para uma borboleta viver novas aventuras e desfilar suas asas coloridas com a liberdade de quem já experimentou de quase tudo na vida. Por isso, o alfeneiro que começava a florescer tornava-se o abrigo em que muitas delas depositavam seus ovos para depois sumirem entre as árvores e as flores.
Nem todos, porém, chegavam a sair da casca. Jurema viu seus irmãos se arrastarem apressados e sumirem de repente. Um deles foi puxado por um bicho enorme, cheio de garras, e levado para longe. Ela ainda ouvia os estalos e guinchos. Outros três desapareceram no bico de passarinhos. Ela se encolheu, sozinha e imóvel, até o silêncio voltar.
Cada vez mais assustada com o que via e ouvia, naquela manhã, ela despertou com os próprios gemidos abafados. O corpo todo tremia buscando espaço e alívio. Contorceu-se, suava frio, ouviu estalos secos, um após o outro. A boca encontrou a casca e mordeu. Mais um pedaço, e outro, e outro. O gosto estranho a fazia continuar sem parar, deixando atrás de si um pequeno rastro de destruição: caules mordidos, flores rasgadas e pedaços verdes grudados no corpo.
Quando os inimigos se aproximavam demais, sua pele soltava um líquido ácido e fedorento e os repelia. Assim podia continuar na sanha devoradora. A comilança só tinha um problema: sua pele começava a apertar por todos os lados. O corpo inchado já não cabia dentro dela mesma. O ar não entrava direito. Não conseguia nem comer. Era insuportável. Então se arrastava até um galho áspero, respirava fundo e se esfregava como se ele fosse um ralador frio e cortante. A cada movimento, uma pontada de dor fazia seu corpo tremer e as lágrimas se misturarem ao suor. E… de novo… e de novo… e de novo…
Um dia, começou a sentir uma fraqueza que a paralisou. Mordeu uma folha bem verdinha, mastigou devagar pela primeira vez na vida, não sentiu gosto, cuspiu. Parou e respirou ofegante. Encostou a cabeça no galho. As patinhas mais grossas e macias foram sendo arrancadas do corpinho frágil e ela não conseguia andar. Juntando as últimas forças que possuía, começou a trocar de pele pela última vez, até que não aguentou mais. Ela desistiu. Encolheu-se num cantinho seguro, imóvel, o corpo mole, como se fosse o fim.
Fechada em sua nova pele, sentia o corpo se desmanchar em dor e lágrimas. Os inimigos, dessa vez maiores e mais perigosos, volta e meia atacavam sem piedade. Ora o balanço das asas dos morcegos, ora o ferrão do marimbondo que não atravessava, ora o bico do pássaro que ressoava no casulo como um tambor, até que o silêncio retornava e mostrava que estava tudo bem, por enquanto.
O tempo passava sem fim. Dentro da casca, tudo doía, mas ela ainda se movimentava. O peito batia lento, mas batia. Aos poucos, a respiração voltou, um leve sopro. Isso renovou suas forças. Ela começou a se empurrar contra as paredes sufocantes até sentir que algo cedeu. O som da armadura trincando por dentro. Um feixe de luz entrou no casulo. Ela conseguiu.
Ao sair, estava exausta e encharcada com um líquido gosmento. Rastejou em busca de um lugar mais quente e ficou ali tentando esticar os braços enquanto o sol secava seu corpo que tremia. Respirou fundo várias vezes. Algo colorido atrás dela se mexia, abria, esticava devagar. O vento tocava superfícies que nunca tinham existido. A boca já não buscava folhas. Em vez de devorar, tocava gentilmente as flores e sugava o néctar aos poucos. Ela voava. Ela VO-A-VA!
Naquele dia e nos próximos, divertiu-se entre as flores e as árvores do bosque, reencontrou alguns irmãos e brincaram juntos. Ela agora não tinha pressa. Passava os dias entre flores e galhos, pousava, sugava devagar, voava de novo. O corpo leve se movia sem esforço, em ciclos de sol e vento, por muitas semanas. Depois de escolher um local protegido para depositar seus ovinhos, desapareceu.
O que aconteceu com ela? Ah, isso ninguém sabe. E, se sabe, não voltou para contar.
Larva apressada é lagarta morta.
E lagarta morta não vira borboleta.
Quando olhamos uma borboleta voando e nos inspiramos em sua metáfora para as nossas próprias transformações, ignoramos que para voar, ela precisou rastejar e arrancar a própria pele várias vezes. Ela se desfez, consumindo-se. Ou seja, o processo todo tem um alto custo e ela esteve altamente comprometida em cada fase. Um segundo de hesitação e teria sido fatal. Basta apenas um “mas é que…” e pronto, adeus, borboletinha!
Nós, que já passamos da fase de larva, não temos mais tempo a perder. O casulo não revela asas. Só a dor e o sufoco.
Se algo em você anseia por dizer-se (um dia… quando eu…), ouse rasgar-se.
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Grandes transformações custam caro, mas sempre valem a pena, por mais dolorosas que sejam.
Excelente, minha amiga!